26/06/2015 | 08h17

ANTÔNIO DE PORFÍRIO

Dentro do quadro Gente de Lagarto, retrato, hoje, a pessoa de Antônio Martins de Menezes, cidadão que se transformou em personalidade, a ponto de ser recebido pelo Presidente da República, Jânio Quadro, em 20 de julho de 1.961. Um “homem de bom coração”, assim celebrado pelas 10 famílias de colonos que levou ao lugarejo conhecido por Treze para ajudar a desbravar a floresta que cobria o território. Foi comerciante de fumo, que lhe proporcionou fortuna; precursor do estabelecimento que é hoje conhecido por supermercado, ao fundar o primeiro minimercado da cidade, chamado “Santo Antônio”; político independente, eleito vereador duas vezes e uma vez prefeito do município. Elevado à condição de presidente da Câmara de Vereadores dividiu sua atividade política em duas ações distintas: (1) aprovar projetos independentes da origem, desde que de interesse da sociedade; (2) e não aprovar se de interesse político.  Chegou a criar desconforto a setores do próprio partido. Sua riqueza dividiu com os pobres. O caixão no qual foi enterrado teve de ser comprado por um amigo fiel.
Fala-se, pois, aqui de um homem rico que ficou pobre por tentar e conseguiu melhorar a vida de quem era literalmente desprovido de recursos; criou máxima: “a terra pertence a quem lavra planta, colhe e a povoa”; propôsalteração no sistema fundiário brasileiro, determinando um limite das propriedades; andou por lugares distantes, considerados inóspitos, cobertos de florestas; desbravou esses lugares, transformando-os em regiões produtoras de alimentos e deu mais importância às coisas do espírito e menos aos bens materiais. Foi um homem simples e extremamente honesto.
Nasceu no pequeno povoado de Taperinha, prolongamento do Povoado Santo Antônio. Ali cresceu e viveu ao lado dos pais Porfírio Martins de Menezes e Eduwirges Araújo Menezes e de uma penca de mais 12 irmãos, num tempo pontilhado de sérias desavenças dentre as quais sobressaía o velho problema -, da mesma idade do Brasil -, da concentração de terras nas mãos de poucos, enquanto a expressiva maioria da população brasileira sofria a agrura da fome por falta de um pedaço deste bem. Situação que permanece inalterável, ainda hoje, na maioria dos rincões brasileiros.
Rodeado de amigos, muitos dos quais influentes; reunia-os em sua residência, sempre à noite, para discutir assuntos pertinentes aos ofícios de cada um, ocasião em que, impreterivelmente, externava os seus projetos futuros de reforma agrária, todos relacionados em ajudar a resolver o problema da pobreza campesina que afetava a maior parte da população do seu município de Lagarto, eminentemente agrário. Embalado por este ideal chegou a ser taxado de comunista.
Influenciado pelo mote “reforma agrária” que acordou o Brasil, a partir de 1925, e o levantou do “berço esplêndido” no final da década dos anos 50 e 60 e início dos anos 70, do século XX e pelo projeto do governo federal de incentivar colônias particulares e criação de pequenas cooperativas no campo, tomou a si o encargo de reformar a área rural do seu município, com o propósito de aproveitar a mão de obra especializada do pequeno agricultor sem terra, fixá-lo no lugar de origem, fazê-lo produzir alimentos, povoar a terra, transformá-la e enriquecê-la.
Herdou toda a experiência política e comercial do pai Porfírio Martins de Menezes, chegando, como o próprio pai, ao mais alto posto da hierarquia política do município; aprendeu a plantar e vender fumo, enriqueceu, tornou-se latifundiário, materializou a influência recebida na adolescência e juventude, loteando parte do latifúndio vendendo e doando os lotes a quem “sabia cuidar da terra”.
Por fim, ousou propor ao governo que limitasse o tamanho da propriedade brasileira para evitar os conflitos que eclodem no país, periodicamente, desde as capitanias hereditárias. Seu projeto chegou aos ouvidos do presidente da republica pela boca do deputado federal Lourival Batista. O presidente Jânio Quadros o recebeu em audiência, ouviu o relato dos seus empreendimentos referentes à reforma do campo, entusiasmou-se e prometeu nova reunião, que não aconteceu.
Cultivou um vício, o único talvez de toda a sua existência – a paixão pela mulher. Sete delas destacaram-se, em períodos diferentes, mas seguidos; todas adolescentes, pelas quais se dedicava por inteiro, “dominado por uma paixão ardente”, como dizia. Ele, como tantos outros enamorados, repetia: o amor tudo conquista. A relação, todavia, era de curto tempo. Com uma - única - conviveu por 27 anos. No período, ela deu organização à sua vida, cuidou dos papeis e documentos, da agenda, da saúde e do bem estar; favoreceu os negócios, ajudando-o a enriquecer. Era a memória viva. Sabia receber e acolher as “visitas” – a residência, diariamente, era frequentada por pessoas necessitadas -; organizava as reuniões noturnas; tratava com amabilidade os participantes aos quais oferecia cafezinhos e, às vezes, até, uma cachacinha. Mantinha o lar na mais perfeita ordem e criou, até a adolescência, o filho primogênito do companheiro.
Antônio Martins de Menezes, este era o seu nome. Conhecido por “Antônio de Porfírio”. No curso da vida deu vida a quatro filhos, com mulheres diferentes, mas nenhum com a mulher com a qual conviveu por mais tempo. Dos filhos, três do sexo masculino e uma do sexo feminino, todos devidamente reconhecidos e protegidos. Apenas um lhe deu preocupação, por agredir pessoas, verbal, física, e até por escrito a ponto de perder amigos, ampliar o número de inimigos e morrer de morte violenta. Muito inteligente, formou-se em pedagogia e frequentou o jornalismo. Chamava-se Marco Antônio de Menezes, apelidado “Marquinho de Xuiu”.
Antônio Martins de Menezes, ao separar-se da mulher com a qual conviveu, sua vida começou a declinar. O motivo da separação não ficou esclarecido, mas levado pelos costumes, hábitos e comportamento da sociedade local, precipitou a decisão, para em seguida arrepender-se. Compreendeu, embora tardiamente, que a decisão de separar-se foi apressada. Começou a sofrer ataques de depressão; a negligenciar os negócios, diminuindo as viagens a Fortaleza, capital do Estado do Ceará, onde mantinha escritório comercial e depósitos de fumo. De Fortaleza distribuía o produto a outros Estados do Nordeste.
Os amigos que outrora frequentavam a casa, uns desapareceram por morte, outros foram afastando-se, na mesma proporção em que diminuía a própria riqueza. Encerrada a atividade comercial e tendo distribuído a fortuna, passou a viver com uma pensão vitalícia que o Estado lhe concedeu. A própria pensão era dividida com quem menos tinha. A depressão renovava-se mais amiúde.
Para completar o infortúnio e apressar o fim da existência, foi preso, acusado de contravenção. Às tardes reunia alguns amigos em sua casa para jogar cartas, recurso utilizado pelos aposentados de todo o mundo, “para passar o tempo”. A prisão teria sido arquitetada por um desafeto político, com o fim de humilhá-lo. Morreu em estado de extrema pobreza, como São Francisco, na expressão de um dos poucos amigos que lhe restaram.
Seu sepultamento, entretanto, constituiu-se num dos momentos mais significativos já acontecidos no município de Lagarto/SE. Os pobres, ainda pobres, e os que ele melhorou de vida, ao tomarem conhecimento de sua morte e da hora do enterro, abandonaram suas propriedades e acorreram à cidade, de automóvel, cavalo, carro de boi e a pé; encheram as ruas e levaram o corpo até o cemitério Senhor do Bonfim. A expressiva demonstração de gratidão enxugou as lágrimas, extinguiu a tristeza e fez desabrochar a alegria no coração dos irmãos, filhos e mulheres remanescentes.
ALGUMAS CONQUISTAS
Sua singularidade foi visível. Como cidadão, criou colônias agrícolas nas regiões dos Povoados Treze, Brasília, Jenipapo, Estancinha, Várzea do Espinho e Manoel Afonso, em Lagarto; Água Fria, em Salgado; Rio Real, um pequeno lugarejo coberto de floresta, transformado, hoje, em município rico produtor e exportador de laranja e coco. Suas colônias são produtoras de alimentos. Sobre a Colônia Agrícola do Treze e aquela da região de Estancinha, envolvendo Brasília, Jenipapo, Várzea do Espinho e Manoel Afonso ele profetizou: “Treze será a terra da promissão; as demais serão comunidades prósperas por onde transitarão ônibus e caminhões transportando, respectivamente, gente e produtos agrícolas que abastecerão inclusive, o município de Aracaju”. O Povoado 13 acolhe, hoje, uma população superior a 20 mil habitantes, conta com uma rede de escolas do infantil ao terceiro grau; Centro de Saúde, farmácias, supermercados e uma emissora comunitária de rádio. É o maior produtor de alimentos do município, em especial laranja e maracujá. “É o cartão de visita de Lagarto, um povoado com cara de cidade”, segundo Horácio Fontes, ex-prefeito de Boquim.
Como político ajudou a transformar a feição e o tamanho da cidade de Lagarto, aprovando projetos de abertura e largura de ruas, a exemplo da Rua Leandro Maciel e a transformação do Beco dos Barbeiros na Rua Dr. Lupicínio Barros. Preferiu contrariar setores do seu Partido Político União Democrática Nacional – UDN fazendo a Câmara dos Vereadores aprovar projeto de Lei de prefeito do partido contrário – Partido Social Democrático – PSD, na condição de Presidente da Câmara de Vereadores. A abertura da Rua Dr. Leandro Maciel acompanhada do aterro do tanque grande foi projetada e executada por ele, na condição de Secretário de Obras do Prefeito Dionísio de Araújo Machado. O aterro do tanque grande permitiu estender a cidade na direção do Povoado Horta, atualmente, bairro do mesmo nome.
Como Prefeito do Município de Lagarto, eleito em 1.958, construiu escolas na cidade e em vários povoados: Horta, Miranda, Cacimba, Coqueiro, Mussurepe, entre outros e na cidade. Baixou 69 portarias e 05 resoluções, sancionou 13 outras, baixadas pela Câmara de Vereadores, sancionou nove leis e emitiu 27 atos. Criou, instalou e inaugurou o Fórum Dr. Josias Machado, na Praça Rui Mendes, a praça do forródromo. Implantou o Departamento Municipal de Estradas de Rodagem, com a missão de elaborar e executar o Plano Rodoviário voltado para a construção e conservação das estradas vicinais ligando os povoados à cidade; abriu as Avenidas Contorno e Nossa Senhora da Piedade, aquela contornando a cidade e esta ligando a cidade ao então Campo da Vila. Parte da primeira foi desmembrada para homenagear o Governador João Alves Filho, pelo prefeito Artur Reis e a segunda, transformada em Avenida Augusto Franco, para homenagear o governador do mesmo nome, pelo prefeito José Vieira Filho, o “Zé do Arroz”. Antônio Martins de Menezes, o “Antônio de Porfírio” foi o artífice da transformação, ampliação, progresso e enriquecimento da cidade e do campo de Lagarto, transformado hoje no orgulho de sua população.

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