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ESQUECERAM DOS SEQUELADOS

31 de Agosto de 2015, 07:25

Comentam-se muito as manchetes do acidente na rua tal, a reportagem na televisão, e no outro dia fica por aí mesmo. O que aconteceu com aquela vítima ou vítimas depois do acidente? Ela voltou à vida normal? Ela ainda está internada? Ficou sequelada temporária ou permanente? Quanto isso custa para a vítima e para o município? Isso ninguém fala. As consequências dos acidentes de trânsito ninguém comenta. Mas, quando sai estatística dizendo que diminuiu o número de mortes no trânsito, aí vira manchete de novo, comemora-se, sem dar a devida importância ao que está por trás desses fogos de artifício.
 
Enquanto isso as vítimas continuam lá, esquecidas, muitas no fundo da cama, dependendo de outras pessoas, parentes e amigos para realizar as atividades mais simples da vida diária como fazer a higiene pessoal, reaprender a andar, a comer, a falar. Algumas, em estado vegetativo no hospital ou em casa. Parece que reduzir o número de mortes em acidentes é prêmio de consolação para quem tem de sobreviver com as sequelas. Sobreviveu? Então, tá. Não se fala mais nisso.
 
E não se fala mais nisso para não ter que apresentar as contas para o município e para o país. Afinal, alguém aí sabe o quanto custa para os cofres públicos os atendimentos aos acidentes de trânsito? Alguém sabe o quanto custa o tempo dos agentes de trânsito, dos socorristas, dos enfermeiros, dos auxiliares e técnicos de enfermagem, dos cirurgiões e dos outros profissionais envolvidos no socorro de urgência e emergência?
 
Alguém já apresentou as contas do quanto custa o deslocamento das viaturas, o combustível, a manutenção e os demais insumos que compõem os custos do resgate às vítimas de acidentes? E os custos com medicação, biológicos, ocupação de leitos, atraso e remarcação de cirurgias para quem espera na fila até durante anos, para na porta do centro cirúrgico ser informado de que mais um politraumatizado em acidente vai ocupar a vaga?
 
Você está na fila por atendimento em uma unidade básica de saúde ou na fila da regulação para ser encaminhado para especialista e nunca chega a sua vez? Já parou para pensar que todos os dias, vítimas de acidentes de trânsito representam grande parcela desses pacientes e que não é por culpa exclusiva delas, as vítimas?
 
Já que a preocupação de muita gente é com a indústria da multa, o faturamento da multa e afins, tem-se atualizados esses valores para informe da população?                                 
 
O fato é que quando se fala em números relacionados ao trânsito a coisa complica porque geralmente pega mal para os prefeitos e os gestores do trânsito nas cidades em que se apertam a fiscalização. Perdem a popularidade, ficam mal vistos e se tornam os homens maus, que arrancam o já parco dinheirinho do bolso do trabalhador, coitadinho, que não pensa nisso quando comete infrações de trânsito e tem pleno conhecimento e consciência de que se for flagrado pela fiscalização, vai doer no bolso.
 
Não muito raro, quando a fiscalização aperta mais ainda, uma hora afrouxa, e por coincidência, perto de ano eleitoral. Não demora muito e surge um herói defensor que vai se orgulhar de ter acabado com a tal indústria da multa e o povo fica feliz de novo e vota nele.
 
Mas, ninguém fala que evitar acidentes e mortes não se faz só com fiscalização linha dura, mas também com aquilo que prefere-se nem tocar no assunto: educação para o trânsito para a população não escolar e medidas de engenharia para fazer o planejamento, sinalização e a manutenção das vias. Resumem a complexidade do planejamento e da gestão do trânsito à fiscalização e à arrecadação.
 
Acidente de trânsito? A culpa é do motorista e bem feito! Só que não é assim! Temos muitos acidentes provocados na cidade por falta de sinalização regulamentar e de advertência, mas também por falta de sinalização nas obras. Tem motorista caindo em buraco, reduzindo a vida útil de amortecedor, do sistema de suspensão e colocando a própria vida em risco em trechos de vias urbanas que precisam de soluções de engenharia. Mas, parece que tudo se resume à fiscalização de velocidade, tanto para quem fiscaliza quanto para quem é fiscalizado, e aí a importância da engenharia, da prevenção e da educação para o trânsito morre na casca de novo.
 
Falar de números e cifras relacionados aos acidentes de trânsito na esfera da Saúde parece ser um tabu porque uma coisa está ligada à outra: os hospitais estão lotados de vítimas porque não temos um compromisso sério com a prevenção de acidentes, porque não temos um Plano de Humanização para o trânsito, porque não se faz educação para o trânsito, porque não se conhece as demandas de soluções de engenharia para o trânsito e porque a população aceita tudo sem questionar mais nada além do excesso de fiscalização.
 
Ao mesmo tempo em que se evita falar e mostrar as cifras relacionadas às consequências dos acidentes de trânsito, parece que se evita também buscar as soluções também em cifras, afinal, existe dinheiro parado em Brasília e em fontes de financiamento destinado aos municípios, mas faltam bons projetos. Ah, mas tem bucrocracia, mas é demorado, mas não é fácil.
 
O que está faltando para existir diálogo, troca de informações e sinergia para levantar esses custos e divulgá-los à população? O que está faltando para se fazer prevenção, educação, fiscalização e engenharia para o trânsito com sangue correndo nas veias e não no asfalto?
 
Que a busca de soluções está no trabalho conjunto e compartilhado entre setores e pastas do poder público, no diálogo e parceria com a sociedade civil, instituições, organizações e com a própria população, isso já sabemos. Agora, queremos os resultados disso, as ações. Queremos saber o custo das consequências dos acidentes de trânsito para a cidade, que vão desde cada real que sai e que entra nos cofres públicos. Queremos bons projetos de captação. Queremos compromisso de verdade com a prevenção e redução da mortalidade em acidentes.
 
Queremos menos política, menos dança das cadeiras em posições estratégicas para a segurança no trânsito da cidade e mais bem comum. Queremos mais iniciativas, mais capacitação, mais know-how para enfrentar o problema como ele deve ser enfrentado.
 
A ficha tem que cair para o fato de que apenas contar as mortes no trânsito e comemorar quando elas diminuem não basta, é pouco, justamente porque segurança no trânsito é muito mais do que isso. Neste ponto, a sociedade tem que entender que viver sequelado não é prêmio por não ter morrido em acidente de trânsito.